Marcos Aurélio

Um blog sobre economia e política.

A recuperação econômica da Islândia

Islândia, a ilha da resistência em plena crise européia

por Charles Forelle (Do Valor de 23.05.2012, aqui. Originalmente publicado no The Wall Street Journal)

 Três anos e meio depois de a Islândia ter se estatelado numa crise econômica, é incrível a atmosfera de recuperação na processadora de pescado de Dadi Palsson em Vestmannaeyjar.

Em um dia recente, Palsson chegou ao trabalho às 4 da manhã. Doze toneladas de bacalhau chegariam dali a pouco. Em breve, os trabalhadores estariam limpando, cortando e embalando o peixe para o embarque em gigantescos navios de contêineres com destino a outros países.

Em 2008, a Islândia foi a primeira vítima da crise financeira que, desde então, vem preparando a zona do euro para outro cataclismo econômico: a Grécia ruma para uma saída catastrófica do bloco, a Espanha é açoitada por um sistema bancário cambaleante e políticos alemães batem boca para definir como manter todas essas peças juntas.

Enquanto isso, a Islândia cresce. O desemprego cai. Menos gente deixa o país.

Só que a Islândia tem uma vantagem expressiva em relação a países em crise na zona do euro: uma moeda que pode ser desvalorizada. Isso converteu o déficit comercial em superávit e facilitou a recuperação.

Ali, a indústria pesqueira vai tão bem que a processadora de Palsson atrai trabalhadores poloneses para a diminuta ilha, formada por rocha vulcânica em formato de coração a cinco quilômetros da costa sul da Islândia.

“As casas estão todas ocupadas porque há muito emprego aqui”, disse Palsson, de 37 anos. Em sua movimentada processadora, uma série de máquinas corta a cabeça do bacalhau e retira as espinhas automaticamente. Fileiras de trabalhadores de uniforme “azul-smurf” se debruçam sobre mesas iluminadas para fatiar o peixe.

A Islândia – que tem moeda, banco central e autonomia para decidir regras só suas – pôde adotar políticas com as quais países da zona do euro não podem mais que sonhar. Suas vitórias dão um panorama vívido de tudo aquilo a que países da zona do euro renunciaram com a unificação monetária. E, talvez, um gostinho do que seria possível caso abandonem o bloco.

O tombo da Islândia em 2008 foi duro. Inchado, o sistema bancário do país ruiu e o desemprego disparou. O governo foi escorraçado por furiosas manifestações nas ruas e eleitores desiludidos. Jovens fizeram as malas. Assim como na zona euro, o FMI entrou em cena com um pacote de socorro.

A moeda do país perdeu metade do valor. Isso turbinou as exportações, como a do bacalhau de Palsson, e reduziu a importação de artigos caros como carros. Desvalorizada, a coroa dificultou a vida de quem emprestou dinheiro em moeda estrangeira para comprar imóveis, mas autoridades islandesas orquestraram um socorro para esse devedor. O encarecimento de produtos importados também trouxe inflação. O índice de preços ao consumidor subiu 26% desde 2008.

O socorro, por sua vez, abalou o sistema financeiro. Mas, ao contrário da Irlanda, por exemplo, a Islândia deixou os bancos quebrarem e passou a conta do prejuízo basicamente para credores estrangeiros – não para o contribuinte islandês.

O país também instituiu controles de capital draconianos – tabu na União Europeia, com sua doutrina de fronteiras financeiras abertas – que impediram a aterrorizante fuga de capital e crédito que atingiu Grécia, Irlanda e Portugal e agora ameaça Espanha e Itália. E, em vez de promover o afoito corte de gastos que devastou a Grécia e a Espanha, a Islândia adiou o arrocho. A princípio, o país chegou a elevar o desembolso de benefícios sociais aos cidadãos mais pobres, que seguiram consumindo e ajudaram a proteger a economia.

“A estratégia em geral deu certíssimo para a Islândia, mas não foi só uma medida, foram todas elas juntas”, disse Julie Kozak, até bem pouco diretora da missão do FMI no país.

A Islândia tem 320 mil habitantes. Uma solução que funcionou ali pode não ser reproduzível em escala maior.

Abandonar o euro seria traumático para a Grécia, mesmo com as vantagens que uma desvalorização possa trazer. Aberta, a economia da Islândia é muito mais voltada ao comércio exterior; os 52 bilhões de euros exportados pela Grécia em 2011 somam 24% do PIB. No caso da Islândia, a parcela é de 59% do PIB. As casas islandesas usam energia geotérmica; a Grécia importa energia e sofreria um sério choque de preços com uma desvalorização.

No começo do mês, a Islândia vendeu US$ 1 bilhão em títulos de dívida de dez anos a juros de 5,875%. É menos do que pagariam hoje Grécia, Irlanda ou Portugal – isso se tivessem acesso ao mercado financeiro. Em março, antes do previsto, a Islândia começou a quitar a dívida com o FMI.

A nascente recuperação da Islândia está longe de perfeita. O país continua mais pobre do que antes do estouro da bolha de crédito. E persiste a desilusão com uma classe política que permitiu os excessos que levaram à crise.

Ainda assim, o futuro da Islândia parece mais promissor do que o de países da zona do euro que entraram em crise um ano depois.

Grande parte da crise da dívida na zona do euro se deve ao desequilíbrio econômico. Durante anos, Grécia e Portugal consumiram mais do que produziram, exigindo a busca de crédito no exterior para tapar o rombo. Quando credores estrangeiros pararam de emprestar, veio o desastre. Um problema parecido ameaça a Espanha.

“Tínhamos, pela maioria dos parâmetros, um desequilíbrio pior do que o da Grécia e o da Espanha”, disse Gylfi Magnusson, professor universitário que foi ministro da Fazenda em 2009 e 2010. “Conseguimos sair dessa, depois de anos muito difíceis, com relativa rapidez”.

Dentro da zona do euro, corrigir desequilíbrios é difícil. Lá, a saída é a chamada desvalorização interna, um eufemismo para o empobrecimento da população. Em tese, derrubar salários aumentaria a competitividade de setores voltados à exportação. Na prática, é difícil baixar salários sem abalar a economia interna.

Na Irlanda, o caso de mais sucesso dentre a turma que recebeu socorro financeiro na zona do euro, essa política provocou uma retomada das exportações, mas à custa de alto desemprego e baixo consumo interno. Na Islândia, por outro lado, a moeda desvalorizada obriga a população a comprar menos artigos importados e mais o que o país produz.

“Na Grécia e no sul da Europa estamos vendo como é duro promover ajustes pelo mercado de trabalho”, disse Tryggvi Thor Herbertsson, um deputado pelo partido conservador, da oposição. “Ajustar através da moeda é muito menos doloroso”, disse.

Uma prova está em Vestmannaeyjar, um lugar tão isolado que é surpresa até que haja atividade econômica ali. Numa noite de janeiro de 1973, o vulcão Heimaey entrou em erupção pela primeira vez em milhares de anos. Os moradores da ilha foram evacuados e equipes de trabalho usaram água do mar para conter o avanço da lava. Um quarto da população nunca voltou, mas Vestmannaeyjar se reergueu. Sua sorte sobe e desce com a dos pescadores. Do começo ao meio da década de 2000, quando a moeda era forte e a farra dos bancos corria solta em Reykjavik, a vida na ilha era dura.

Agora, o jogo virou. Duas vezes por semana, grandes embarcações zarpam cheias de bacalhau fresco, congelado ou salgado, de tilápia, cavala e lagostins.

Em troca, chegam euros e dólares. A um câmbio de cerca de 125 coroas por dólar, a moeda islandesa vale metade do que valia em 2007, antes do colapso. Isso significa que um pescador ganha hoje o dobro em coroas pela mesma quantidade de peixe. Mesmo com a inflação, a situação é bem melhor.

E um lucro maior na atividade empresarial significa mais investimento. Palsson, que pesca lagostins desde os dez anos de idade, abriu a processadora de pescado Godthaab i Nof com quatro sócios uma década atrás. Em 2005, no auge da valorização da coroa islandesa, perdia dinheiro todo mês. “Daquela época até 2008, ninguém queria mexer com peixe”, diz. Hoje, a empresa está se expandindo e investiu recentemente US$ 2 milhões para reativar uma fábrica.

Mas a Islândia não saiu totalmente da crise. Mesmo depois do perdão de dívidas, o alto endividamento ainda segura muitas famílias. O aumento do emprego na pesca não se repete em toda parte. Praticamente todos concordam que o país precisa abolir o controle de capitais, embora haja pouco acordo sobre quando ou como.

Breve comentário do blogueiro: não obstante a boa descrição dos mecanismos da recuperação econômica da Islândia, no fundamental ligados aos incentivos e controles estatais, em duas passagens pelo menos o autor se entrega aos raciocínios neoliberais: 1. quando se refere Portugal, Grécia e Espanha recorrendo à gasta fábula da cigarra e da formiga; 2. quando, na última frase, apresenta o controle de capitais em chave negativa.

A luta pelo socialismo dispensa dogmas

A luta pelo socialismo dispensa dogmas

por Daniel Sebastiani* (Do Vermelho, aqui)

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade, em circunstâncias escolhidas por eles próprios, mas nas circunstâncias imediatamente encontradas, dadas e transmitidas. A tradição de todas as gerações mortas pesa sobre os cérebros dos vivos como um pesadelo. E mesmo quando estes parecem ocupados em revolucionar-se, a si e às coisas, mesmo a criar algo que ainda não existente, é precisamente nestas épocas de crise revolucionária que esconjuram temerosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem de combate, a sua roupagem, para, com este disfarce de velhice venerável e esta linguagem emprestada, representarem a nova cena da história universal. (…)

“A revolução social do século 19 não pode tirar a sua poesia do passado, mas apenas do futuro. Não pode começar consigo mesma antes de se limpar de toda superstição perante o passado. As anteriores revoluções necessitavam das reminiscências da história universal para dissimularem o seu próprio conteúdo. A revolução do século 19 tem que deixar os mortos, enterrar os seus mortos, para chegar ao seu próprio conteúdo. Ali, a frase ultrapassava o conteúdo; aqui, o conteúdo ultrapassa a frase.” K. Marx (1)

Quando Marx escreveu estas linhas no seu O 18 Brumário de Louis Bonaparte, ele fazia alusão à necessidade colocada pelas novas revoluções proletárias, em oposição à forma e ao conteúdo das antigas transformações revolucionárias pela qual passara a humanidade. Portanto, é atual a sua preocupação, uma vez que vivemos um processo de transição (este conceito, é preciso dizer, não se opõe ao conceito de revolução na acepção marxista, pelo contrário, o inclui), entre a sociedade capitalista e a nova sociedade socialista.

Por isso, soa como dogmático, portanto não marxista, (uma vez que este se pressupõe científico e a ciência é incompatível com o dogma), a busca, que setores da esquerda, ditos “revolucionários”, têm feito, de fatos e declarações do passado para arguir que o Partido Comunista do Brasil não pode “reivindicar” ser o sucessor pleno de lideranças históricas ou da organização histórica dos comunistas.

Procurar debates feitos à época, aspectos legais das disputas ocorridas entre comunistas brasileiros entre 1958 e 1962, e dizer que estes elementos estão sendo utilizados maliciosamente pelo PCdoB para legitimar a sua política, que não seria mais comunista, é literalmente apelar aos mortos para julgar os vivos.

A luta de classe para a construção do socialismo e o marxismo sempre prescindiram de atavismos e dogmas, ao contrário, quando estes se impuseram, ofuscaram a ação política concreta e trouxeram prejuízos à luta pelo socialismo.

O generoso esforço do PCdoB de resgatar todos os grandes nomes e fatos da luta pelo socialismo no Brasil para construir uma grande identidade do heroico passado, não é um mero ato de generosidade piegas, mas uma forma de contribuir com a identidade de luta de nosso povo, para armá-lo no presente no rumo das lutas pela construção do futuro.

Estes representantes da “museuologia” comunista deveriam estudar Marx, se libertarem de todos os dogmas, deixarem os mortos em paz, e resgatar o exemplo de luta dessa época para fazer, hoje, o que eles, com seus erros e acertos, fizeram ontem. Isto os livraria de dizerem absurdos como os de que apoiar Lula e Dilma, e as transformações ocorridas no Brasil neste período, é trair a luta dos trabalhadores pelo socialismo.

O PCdoB é um dos poucos partidos comunistas do mundo que cresceu significativamente, neste período histórico, sem abandonar seu nome ou sua referência ao marxismo-leninismo e ao socialismo. É claro que não é uma organização comunista perfeita (só existente na cabeça de quem, a partir da ideologia idealista, constrói uma visão platônica e, portanto, mitificada do passado), está eivada de contradições e desafios, mas estas contradições não se dão no mundo platônico das ideias perfeitas, e sim, na vida concreta de uma organização concreta que tenta fazer com que a revolução socialista brasileira seja algo concreto. É a esta ousadia que os trabalhadores no futuro certamente renderão homenagem.

Portanto, ao comemorar 90 anos de luta dos comunistas, os “museocomunistas” devem deixar de esconjurar os espíritos do passado, como afirma Marx, e fazer o que os comunistas fizeram desde a época de Marx ou de Lênin: jogar-se na luta política concreta, vencer o capital financeiro e outros inimigos estratégicos da revolução brasileira e eleger o maior número de prefeitos e vereadores comunistas para avançar na correlação de forças concreta no rumo de um Brasil socialista… o Brasil do futuro.

1. Marx, K. e Engels, F. Obras Escolhidas. Lisboa: Edições Avante, 1982.

*Historiador, membro da direção estadual do PCdoB no Rio Grande do Sul.

Das fragilidades nacionais para reerguer o setor industrial

A quem interessa industrializar

por Wladimir Pomar (Do Correio da Cidadania, aqui)

Alguns economistas, com certa razão, apontam que uma das principais dificuldades para o crescimento industrial se encontra no próprio empresariado brasileiro. Ele estaria velho, esgotado, sem gana para enfrentar os problemas de financiamento e criar um novo modelo de investimentos, sem capacidade de inovação, com baixa produtividade e acúmulo de custos. Outros, também com certa razão, apostam que está havendo uma mudança microeconômica efetiva, com uma série crescente de novos empreendedores, capazes de modificar o modelo empresarial brasileiro.

Com certa razão, porque uns e outros expressam, de diferentes maneiras, uma importante diferenciação interna nos proprietários privados dos meios de produção, isto é, na burguesia brasileira. Esta, ao contrário das burguesias industriais que nasceram historicamente dos comerciantes em luta contra os latifundiários e seu Estado, nasceu do seio da riqueza latifundiária, no processo de substituição das importações, durante a I Guerra Mundial. Isso a manteve umbilicalmente atrelada ao latifúndio, como demonstrou seu apoio à cafeicultura paulista durante o levante “constitucionalista” contra Vargas, embora o programa deste fosse industrializante.

A industrialização posterior a 1930 não mudou essa situação. Foi o Estado comandado pela oligarquia latifundiária gaúcha que promoveu o desenvolvimento da grande burguesia industrial brasileira e sua crescente participação nesse Estado, que regulou o mercado, fazendo com que várias áreas fossem cativas das estatais e da grande burguesia nacional.

Assim, quando os investimentos estrangeiros se tornaram massivos, primeiro no final dos anos 1950 e, depois, nos anos 1960, a grande burguesia nacional, dominante principalmente nas áreas bancária, química, têxtil, construção civil e aviação, não se sentiu ameaçada.

Ela só se rebelou em 1973, durante a crise do petróleo, contra a crescente participação das estatais na economia, não dizendo sequer um “ai” diante da oligopolização de setores inteiros pelas multinacionais estrangeiras, e da destruição da malha ferroviária para atender à implantação do setor automobilístico.

Assim, olhando com mais atenção, a dificuldade que a grande burguesia brasileira e a burguesia estrangeira apresentam para a retomada do processo de industrialização nacional não está em sua velhice ou em seu esgotamento, mas sim, como temos acentuado, na oligopolização que exercem sobre alguns ramos básicos e sobre o conjunto da economia. A implantação de novas plantas de fabricação representa maior concorrência e a quebra da prática de preços administrados, ou preços de monopólio.

Essas burguesias não estão dispostas a deixar que a livre concorrência, que arrotam constantemente, mas não usam, se instale no Brasil. Isso ocorre principalmente nas indústrias automobilística, químico-farmacêutica, fertilizantes e pesticidas, e da construção pesada, assim como nas áreas bancária e financeira e no comércio de commoditites agrícolas e minerais, que desempenham papel importante no processo de industrialização. Contar com elas para destruir seu próprio monopólio é pura ingenuidade.

Por outro lado, existe uma miríade de médias, pequenas e micro empresas, de propriedade de setores que podemos chamar de média e pequena burguesia. Essas burguesias não são homogêneas e, às vezes, possuem interesses contrários. Por exemplo, existe um amplo setor da burguesia média que cresceu e se desenvolveu na condição de fornecedora de peças e componentes para as grandes indústrias nacionais e estrangeiras, e que teme perder essa condição se o oligopólio for quebrado.

Outros setores médios, e a maior parte das pequenas e micro empresas, tanto privadas quanto solidárias, enfrentam dificuldades na elaboração de projetos, no acesso a novas tecnologias e a financiamentos públicos, na concorrência desleal e nos tributos, apesar dos avanços promovidos pelo governo nessas áreas. Mas são esses setores burgueses, juntamente com as empresas estatais e os trabalhadores, os principais interessados na industrialização.

Embora a taxa de morte das empresas industriais médias, pequenas e micros seja relativamente alta, em virtude daquelas dificuldades, o esforço de inovação tem constituído uma das chaves para a sobrevivência das que continuam em atividade. Nessas condições, enquanto os principais esforços de assessoria técnica do Estado, do BNDES e dos demais instrumentos públicos de fomento estiverem voltados para as grandes empresas, essas empresas médias, pequenas e micros continuarão patinando em seu desenvolvimento e contribuindo marginalmente para a industrialização.

No caso das estatais, enquanto elas estiverem limitadas a apenas algumas áreas, como aos setores bancário, de petróleo e gás, energia elétrica, e estiverem amarradas em sua capacidade de investimentos e de indução da industrialização, elas também continuarão contribuindo de modo restrito no desenvolvimento industrial e social. E, quanto aos trabalhadores, embora seu destino seja opor-se ao capital, isto só pode ocorrer à medida que o capital em geral, e o capital industrial em particular, aumentem a participação dos trabalhadores assalariados no conjunto da população brasileira e, com isso, criem as condições para esses trabalhadores se tornarem uma força social poderosa.

Portanto, talvez tenha chegado o momento de o governo, da mesma forma que fez a oligarquia latifundiária gaúcha quando assumiu o poder em 1930, fazer a escolha dos setores em que é fundamental a presença de empresas estatais e dos setores burgueses realmente interessados na industrialização, fornecendo-lhes os instrumentos necessários a seu desenvolvimento. Do ponto de vista social e político, isso significa criar uma forte aliança da classe dos trabalhadores assalariados com os setores médios e pequenos da burguesia, assim como com outros setores populares, em torno da política de industrialização.

Esta deveria incluir mecanismos de rompimento do sistema de oligopólios, regras de atração de investimentos externos, que permitam a transferência de novas e altas tecnologias, o fortalecimento de empresas nacionais estatais e privadas e o adensamento das cadeias produtivas prioritárias para o desenvolvimento industrial e econômico.

É lógico que a grande burguesia nacional e estrangeira, em especial seus setores financeiros, vão se opor ferozmente. Mas isso faz parte do jogo.

Breve comentário do blogueiro.

Há dois equívocos no texto:

1. apontar o capital comercial como origem dos processos de industrialização. Toda a discussão que se estabeleceu no seio do marxismo nos anos 1950 (Dobb) e 1970 (Brenner) pôs em quetão esta tese;

2. a industrialização brasileira não se iniciou na Primeira Guerra Mundial, mas bem antes, em torno da segunda metade da década de 1860. Aliás, o período da Primeira Guerra Mundial conheceu uma substituição de importações apenas ao nível da produção, não tanto do investimento.

No mais, o texto traz elementos importantes para a discussão atual em torno das dificuldades de acelerar o crescimento da indústria nacional, que há uns anos apresenta desempenho pífio.

As resistências da direita à Comissão da Verdade

Investigar “outro lado” seria igualar nazis à resitência

por Rodrigo Vianna (Do blog Escrivinhador, aqui)

Raymond Aubrac morreu no mês passado. Tinha 97 anos, viúvo. Na França, era tratado como herói. Lutou de armas na mão contra os nazistas e contra os franceses colaboracionistas, que aceitaram manter um regime fantoche em apoio a Hitler.

Aubrac e a mulher, morta há uma década, foram líderes da Resistência Francesa. Se morassem no Brasil, parte dos comentaristas e colunistas da direita brazuca certamente diria que eles tinham sido ”terroristas”. Sim, Aubrac lançou bombas, deu tiros. Foi preso, escapou milagrosamente dos nazistas. Tinha inimigos. E lutou. E não deixou de lutar. Depois da Guerra, tornou-se amigo de Ho-Chi-Min. E na última campanha eleitoral francesa, chegou a declarar apoio a Hollande, do Partido Socialista. Ele tinha um lado.

Um homem precisa ser “neutro” pra lutar por Justiça? Tolice. Mais que tolice. Argumento falacioso a proteger criminosos de guerra. Seja na Europa ou na América do Sul. Aqui,  às vezes cola. Lá, não cola…

No Brasil, Aubrac e a mulher talvez fossem chamados de “petralhas”. Mais que isso. Talvez aparecesse um ex-ministro tucano dizendo que “os dois lados” precisam ser investigados. Sim! Não é justo julgar (ou relatar os crimes, que seja) apenas dos pobres nazistas. E as “vítimas inocentes” do “outro lado”? Essa Resistência Francesa era “criminosa”…

Aubrac seria exercrado, ofendido. Pela internet, circulariam e-mails idiotas chamando o sujeito de “terrorista”, talvez achassem uma foto dele com  fuzil pra dizer: olha só, o “outro lado” era adepto da força bruta, não era bonzinho, também precisa ser investigado…

Isso me lembra o título daquele livro: “Falta Alguém em Nuremberg!” Sim, para a direita brasileira (e os apavorados que se acham de esquerda e têm medo de enfrentá-la) seria preciso enviar a Resistência Francesa a julgamento! Afinal, a Resistência pegou em armas, cometeu “crimes”.

No Brasil, por hora, nem se fala em julgamento. Mas numa simples Comissão a relatar os crimes cometidos por agentes do Estado. Crimes contra a Humanidade. Não se fala em execrar soldados, sargentos ou oficiais que, eventualmente, tenham matado guerrilheiros em combate. Da mesma forma, nunca ninguém se atreveu a “condenar” soldados alemães que lutaram nas trincheiras ou nas ruas.

O que se pretende é relatar crimes de tortura, desaparecimento, assassinatos cometidos a sangue frio… Ah, mas estávamos numa “guerra”, dizem militares brasileiros (secundados por civis perversos, e até por gente de boa fé mas desinformada)  que atacam a Comissão. Há controvérsias se aquilo que ocorreu no Brasil foi uma “guerra”…

De todo jeito, na Europa houve “guerra”. Pra valer. Nem por isso, crimes contra a Humanidade deixaram de ser julgados. Nazistas e seus colaboradores que torturaram, assassinaram e incineraram gente indefesa foram a julgamento. A Resistência Francesa não foi a julgamento. Nem irá.

O resto é invenção do conservadorismo mais matreiro do mundo, porque dissimulado: o conservadorismo brasileiro. Nesse debate sobre a Comissão da Verdade, é preciso derrotá-lo. Com inteligência, moderação. Mas com firmeza.

Lágrima do Sul – Milton Nascimento e Uakti

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